Aqui está um problema de “primeira linha“ - dito de outra forma para permitir análise – de “primeira ordem“, pelo menos para um escritor:
Como escrever a primeira linha (frase, verso, pensamento)?
Aqui a questão está suavemente modificada: como fazer o primeiro post de um blog?

Não saberia informar se o caso fosse o de uma pessoa que não se preocupa com as palavras. Mas no caso de um psicólogo, um poeta, um leitor de filosofia nas horas vagas, um analista de práticas e discursos, posso aproveitar a ocasião prá refletir sobre minha própria forma de escrever!
Particularmente, gosto da fórmula de Nietzsche:
“Mas tu, por que escreves então?”
A – Não sou da classe daqueles que pensam com a pena molhada à mão; menos ainda daqueles que se abandonam às suas paixões diante do tinteiro aberto, sentados em sua cadeira e olhando fixamente para o papel. Irrita-me ou dá-me vergonha o escrever; para mim escrever é uma necessidade – repugna-me falar nisso mesmo sob forma de símbolos.
B – Mas, então por que escreves?
A – Meu caro, ouve um segredo: não descobri outra maneira de me desembaraçar de meus pensamentos.
B – Por que queres te desembaraçar?
A – Por que quero? Será que assim desejo? Sou forçado a isso.
B – Certo! Certo!”
(F. W. Nietzsche – A gaia Ciência – aforismo 93)
É difícil me ocorrerem poesias ou outra ordem de escritos verdadeiramente inspirados (exceto que algum dia me diga profeta), mas quando acontecem, é porque a primeira linha - em geral umas três na verdade - já se insinua imprescindível, irresistível, dominadoramente. Até mesmo para escrever este primeiro post, meu sono foi roubado em pelo menos alguns minutos. Só não reduziria sua função à mera preservação do sono – longe disso!
Uma questão política: em função dessa compulsão de confessar, quanto de ação efetiva no mundo não está sendo “sublimada” nesses posts neste momento? Quantas horas de sono e saudável descanso (no caso de serem feitos por trabalhadores) não estão sendo preservadas ou perdidas? Quanta embriaguez? Quanta subserviência do indivíduo à opinião pública – e da pior forma: sem propósitos verdadeiramente políticos!?
Antes que algumas questões perigosas para a mente comum, para “o espírito desacostumado“, se formulem, resumo: é moralmente necessário!