Dos “pudores do corpo”…

22 Janeiro, 2006 por victorunico

SimoneHonestamente, não desejaria voltar uma vez mais a este tema, mas é preciso fazer um adendo ao post Do exercício da sexualidade….

É que existem buscas que não se dão por findadas até que se encerrem os doces acasos que as acompanham – principalmente quando se é poeta!

Uma negligência: que da inclinação do poeta – e de toda ordem de artistas – decorre que em seu âmbito de conhecimento só passou a existir pudor quando o corpo foi sacralizado pela religião e dessacralizado pela ciência – particularmente a Medicina.

Que sobre a sujeita que se fez assentar sobre o corpo (como carne) por força das práticas cristãs, redobrou depois a Medicina, no sentido de tomar para si o privilégio de falar sobre e de gerir o mesmo.

O que era graça à poesia, fez-se pecado na religião e doença nos saberes médico-psiquiátricos!

Que a poesia sempre esteve muito mais perto da gente comum e que houveram poucas ocasiões em que essas linguas verdadeiramente se calaram a respeito desses assuntos!

Dos incômodos dos poetas…

21 Janeiro, 2006 por victorunico

Há quem creia que o que faz um poeta é o possuir uma sensibilidade apurada.

Se é assim, é mesmo um tormento possuir uma fisiologia de poeta, já que, neste caso, “fazer tempestade em copo d’água” não é mera figura de linguagem!

Que há tantas realidades a que ser sensível, que fatalmente só podemos ser o tempo todo parciais.

Que mesmo uma palavra nos pode colocar em contato com tão infinitas coisas… que só mesmo desdobrando da vida a poesia, pode a vida ser resguardada de não perder o contato consigo mesma!

A pulga atrás da orelha - Victorunico

Poema originalmente publicado no Jornal PET – Jornal do Curso de Psicologia e Boletim Informativo do Grupo PET Psicologia – UFES. Edição n.º 8, julho de 2000. Foi minha primeira publicação (se é que assim posso chamar).

Acompanhava a seguinte Nota:

“Este poema foi fruto da Oficina de Produção Literária, evento que encerrou o Seminário ‘Universidade em Discussão’, realizado entre 05 e 09 de junho deste ano [2000] como proposta de Atividade de Greve, produzido pelos ‘Estudantes da UFES’”.

Na época nossa moral pedia que não fossem definidos quem eram esses estudantes… mas seria injustificável não dizer que quem coordenadava a oficina era meu caro amigo (Luiz Gustavo) BADARÓ.

Do exercício da sexualidade…

19 Janeiro, 2006 por victorunico

EscrevendoO que se pode esperar de quem vive (a vida – no sentido forte, afirmativo e livre) e vive (se compele – num sentido extraforte, supra-afirmativo e restritivo) como que de prontidão para se assentar* e declinar-se* sobre qualquer meio de transcrever o que depreendeu da vida na forma de escrito?

[(*) Leiam-se tais palavras sob todos os sentidos!]

Há muito já se disse que não se pode esperar dos poetas a verdade, compelidos que estão a creditar algum saber sobre o céu e a terra a quem cola as orelhas nos barrancos!

Tampouco - complemento eu – se deve fazer de um tal fanfarrão, depositário do privilégio da melhor percepção sobre nossa sexualidade!

Que me cerquem mil poetas a falar e declamar seus afetos! – apartem-se todos de mim – mentirosos com suas encenações e exibicionismos!

Que sempre que falarem dos seus orgasmos – é porque não gozaram!

Que crédito dar a essa raça de gente que precisa da minha audiência – ou da atenção fugídia de um leitor – prá atingir o platô!?

Que sempre que descreverem suas aventuras, vividas ou inventadas – que se entenda que ainda que dançem, deitem, rolem e suem seus corpos – pretendem no fim: assentarcorrer numa urgência inevitável à cadeira para normatizar, estabilizar, codificar, legitimar – tornar sua experiência decreto!

Que nesse impulso, necessariamente o acompanha o declinar-se – antes a si mesmo, e depois fazer declinar o outro! – Se curvar ao papel, ao teclado (o que seja); fazer respeito ao mais efêmero pensamento ou ato; reverenciar suas criações como coisas eternas; e, por fim, levar ao declínio a própria vida!

Conselho de um psicólogo: abandone os poetas e poetize tu mesmo com teu corpo!

Nova Fase - Victorunico

Por que o que importa é a fisiologia!

18 Janeiro, 2006 por victorunico

Ao tratar do sono (Um problema de “primeira linha”!), da fome (O segundo problema de um escritor!) e agora da sede, muito provavelmente você se aperceberá de que o que está em jogo aqui é a fisiologia.

Assim é para o filósofo Nietzsche, e para o psicólogo Maslov – curiosamente ambos falam de pirâmides (um do ponto de vista do que é socialmente necessário; outro, do que o é ao indivíduo).

Por razões filosóficas prefiro a distinção criada por Nietzsche, que declara que toda sociedade saudável é formada por três tipos de homens, cada qual com uma fisiologia própria (Nietzsche, O anticristo, LVII): uma casta superior, formada por intelectuais – representando a felicidade, a beleza e tudo de bom sobre a terra; uma segunda, constituída por guerreiros nobres, que constitui o elemento executivo dos intelectuais; e uma terceira, determinada pela mediocridade - que em si mesma não é nem boa nem ruim - uma classe cuja fisiologia gravita entre as duas primeiras. Esses três tipos se condicionariam mutuamente, uma vez que da grande base da pirâmide social, constituída pelos medíocres, se distinguem as duas primeiras.

Talvez me perguntemcomo pode suas fisiologias serem diferentes se a água que bebem é a mesma?

Aqui entraria uma questão propriamente existencial, porque se uns se resumem a simplesmente beber e gastar a água que lhe chegam às torneiras, outros fazem com que essa água seja recolhida dos mananciais, tratada, conduzida por uma invisível engenharia até as torneiras de todos. Outros ainda, se dedicam a pensar não só essas questões práticas e cotidianas, mas a refletir como preservar a água que está aí agora, de onde tirá-la no futuro, como educar a sociedade para melhor beber!

Mas não me perguntem onde entra o poeta que simplesmente toma a água (também no sentido comum!) por tema de criação - porque se há algo que um poeta sabe fazer por excelência é mimetizar sua diferenciação!!!

(A poesia que segue foi composta especialmente para uma apresentação cultural no Colégio Agostiniano – Vitória, no ano de 2004, cujo tema da Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB era “Água: Fonte de Vida“. A mesma poesia foi gentilmente emprestada ao poeta, cartunista e dramaturgo capixaba Milson Henriques para declamação, no mesmo ano, na festa de comemoração do aniversário da CESAN – Companhia Espírito Santense de Saneamento).

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Gota d'água

ÁGUA-VIVA
Victorunico

O segundo problema de um escritor!

17 Janeiro, 2006 por victorunico

Se eu fosse um ariano, definitivamente meu problema de “primeira linha” estaria resolvido, pois se há algo que arianos fazem bem é iniciar (às cabeçadas e geralmente deixando para que outros refinem o trabalho, mas tudo bem!).

Mas o fato é que sou um libriano – o oposto complementar: mais inclinado a pensar, contemplar, embelezar, sociabilizar! Vez ou outra um impulso criador, que sempre pressupõe um outro destrutivo – para o quê, algo deve pré-existir!Siga

Mas a questão que se formula aqui é: como continuar o que se iniciou?

 

E como sei que a jornada é longa, é mister tratar de matar a minha fome… porém: a qual delas atentarei primeiro???

Um problema de “primeira linha”!

15 Janeiro, 2006 por victorunico

Aqui está um problema de “primeira linha“ - dito de outra forma para permitir análise – de “primeira ordem“, pelo menos para um escritor:

Como escrever a primeira linha (frase, verso, pensamento)?

Aqui a questão está suavemente modificada: como fazer o primeiro post de um blog?

Não saberia informar se o caso fosse o de uma pessoa que não se preocupa com as palavras. Mas no caso de um psicólogo, um poeta, um leitor de filosofia nas horas vagas, um analista de práticas e discursos, posso aproveitar a ocasião prá refletir sobre minha própria forma de escrever!

Particularmente, gosto da fórmula de Nietzsche:

Mas tu, por que escreves então?”
A – Não sou da classe daqueles que pensam com a pena molhada à mão; menos ainda daqueles que se abandonam às suas paixões diante do tinteiro aberto, sentados em sua cadeira e olhando fixamente para o papel. Irrita-me ou dá-me vergonha o escrever; para mim escrever é uma necessidade – repugna-me falar nisso mesmo sob forma de símbolos.
B – Mas, então por que escreves?
A – Meu caro, ouve um segredo: não descobri outra maneira de me desembaraçar de meus pensamentos.
B – Por que queres te desembaraçar?
A – Por que quero? Será que assim desejo? Sou forçado a isso.
B – Certo! Certo!” 

(F. W. Nietzsche – A gaia Ciência – aforismo 93)

É difícil me ocorrerem poesias ou outra ordem de escritos verdadeiramente inspirados (exceto que algum dia me diga profeta), mas quando acontecem, é porque a primeira linha - em geral umas três na verdade - já se insinua imprescindível, irresistível, dominadoramente. Até mesmo para escrever este primeiro post, meu sono foi roubado em pelo menos alguns minutos. Só não reduziria sua função à mera preservação do sono – longe disso!

Uma questão política: em função dessa compulsão de confessar, quanto de ação efetiva no mundo não está sendo “sublimada” nesses posts neste momento? Quantas horas de sono e saudável descanso (no caso de serem feitos por trabalhadores) não estão sendo preservadas ou perdidas? Quanta embriaguez? Quanta subserviência do indivíduo à opinião pública – e da pior forma: sem propósitos verdadeiramente políticos!?

Antes que algumas questões perigosas para a mente comum, para “o espírito desacostumado“, se formulem, resumo: é moralmente necessário!