
INSPIRAÇÃO
No silêncio da noite, escrevo.
Só o ponteiro insistente do relógio desconcentra-me,
O som seco que dele provêm aumenta
E o silêncio lá fora gradativamente solidifica-se.
Logo o pensamento alça vôo
E a caneta devora o branco das pautas
Vertendo tudo que passo,
Sem discrição, no poema.
Nada importa tanto quanto as lembranças
O presente se torna mecânico e automático
Subitamente emerge o concreto das ilusões
Que se reflete na tensão do subscritor.
A folha se rasga sob a pressão do instrumento
O amante não vê o dano provocado
E o suor flui desfibrando a celulose
Sem arreio e sem pudor.
Desce um queimor no inspirar
Se cerro as pálpebras, correm lágrimas flamejantes
A adrenalina vibra os músculos,
Sensibiliza-se a carne.
O sangue arde nas orelhas, boca e nariz
E um formigamento corre o corpo
E um frio contrai o esqueleto
E amo a brisa que sopra.
O contentamento reprime os trágicos desconfortos
Que morrem a este encanto
De sentimentos cândidos, e cuja candura
Há de manter-se inquebrável.
A caneta cai, dá-se cumprida esta imortalização
E o papel tem a originalidade comprometida
Pelo fluido que emana da pele orvalhante
E o néctar salgado que lubrifica o olhar.
O bêbado cambaleante de olhos cansados
Sai da orgia da qual gozou na escrivaninha
E joga-se no leito no ímpeto das últimas forças
Recolhe ao peito o travesseiro, com sofreguidão
Espera-lhe no sono inquieto, sísmico,
Provavelmente a avidez das paixões,
A veemência dos desejos vitais,
O regalo inconsciente.
Colatina, 1995. Especialmente para a “Feira de Literatura” realizada no Colégio Marista.
21 Agosto, 2008 às 6:57 pm |
Tua escrita é cheia de significados que precisam ser lidos com atenção para esboçar compreensão, mas os escritores do nosso tempo são assim mesmo – cheios de pesados significados encobertos por palavras duras. Será que tem algo que ver com esses tempos difíceis pelos quais passamos? Penso que sim. A arte é a leitura dos tempos presentes.
Parabéns.