Um outro em si

18 Setembro, 2008 by victorunico

Um grande salto para a poesia deu-se quando o homem inventou a alma!

O mundo só não basta! É preciso um ultra-mundo, um além-mundo!

E quantas coisas não foram facilitadas para a poesia a partir dessa invenção!

Uma delas, das mais tematizadas, é essa idéia de que há um outro que se me adequa e cuja causa da adequação mútua não decorre de meu esforço nessa direção.

- Minha alma gêmea! – dizemos.

Paradoxo: erro o mundo inteiro buscando um canto onde não fazer esforço.

 

SE EU FOSSE…

 

 

Sonhos…

Se eu fosse um sonho,

Fluiria apenas,

Como quem corre suas águas para o mar

Ou como aquele que desliza transparente.

Entre as folhagens.

Nada me impede de mergulhar,

De explorar

… e conquistar.

É apenas o silêncio abissal do Universo

Que me chama,

Clama…

Clama por mais formas, mais imagens,

Mais cores, mais fantasia enfim.

E eu aqui,

Não mais que forma, memória e ideologia.

Sonho… sou sonho.

Indefinido,

Na agitação de vagas de pensamento,

Na confusão das vozes do inconsciente.

Sou rascunhos,

Sou idéias,

Sou desejos…

Sou sonhos,

Me completo nos sonhos.

- Descobri!!!

Eis aqui agora,

Num fluido de pensamento

A concepção de alma gêmea,

Sonho… sou eu outra vez,

O EU que eu quero,

Que busco,

Que espero,

Por hora e vezes mero,

Me quero.

Colatina, meados de 1996.

After the mourning…

21 Fevereiro, 2006 by victorunico

Talvez, depois de um longo silêncio, acredito que minha poesia ganhará um novo significado.

Como vinha dizendo no capítulo Dos incômodos dos poetas…, sob forma de metáfora, um delírio momentâneo me fez associar o silêncio ao luto… e daí ao dicionário de inglês/português. E que coincidência interessante que “luto” se pareça com “manhã” em inglês e soa como “morno” num barbarismo de leitura aportuguesada!

Principalmente após a morte de uma pessoa que por decisivos anos foi quase o meu psicopompo às avessas, conduzindo minha alma do subterrâneo para o sol por uma caverna até à balança da Justiça por intermédio do meu contato com os livros.

 

Pela primeira vez me atacou a vontade de recitar poesia sobre os túmulos!

 

(Fica aí um mistério para meus eventuais biógrafos, se forem bons em cruzamento de dados!)

 O MEU PRÊMIO É O SILÊNCIO

Victorunico

Se o peso na consciência fere
Peso a consciência tranqüilo
Pra ver que o sofrimento é bom.

Se o sonho bom acaba
Continuo vagando em pesadelos
Caio da cama e ligo um som. 

E quando ando desiludido
Procuro um ouvido, aturdido,
Pra chamar de meu amor. 

Eu corro em rua deserta
Descalço no chão de pedra,
Eu dispenso a arquibancada cheia,
Creia! O meu prêmio é o silêncio. 

Se as rugas retalham o rosto,
Digo ao tempo: Espere um pouco!
Vou ligar o despertador. 

Se o vento traz um zumbido
Olho mais pro infinito
Quero curar a minha dor.

De louro em ouro…

6 Fevereiro, 2006 by victorunico

Aqui está algo para quê um poeta muitas vezes está destinado: morrer no prefácio!

Tão comum quanto dizer-se que o sentido da obra de arte está em quem a vê é o costume de dá-la para que um apresentador canalize seu sentido!

Para a glória dos poetas, não são raros os leitores que saltam esses garranchos imcompreensíveis como forma de matar o tempo!

Moral da história: uma dupla mentira! – O prefaciador finge que apresenta. O poeta finge que importa o que vai escrever o prefaciador.

 

PREFÁCIOS
 

                                  Victorunico

Poetas, tomem cuidado
Com quem vos prefaciam!
Não entreguem assim
O “rosto” e as “orelhas”!
É da obra de vossas vidas
Do que falam. 

Que mesmo quando não vendem…
E em geral poucas poesias vendem…
Não é aí, de cara,
Que colam os olhos os leitores!? 

Tantos cascalhos reviraram
E agora entregam o ouro!? 

Que o ouro não está aí,
Também o creio!
Mas isso é peneira
Que leva ao ouro dos outros.
Ouro de tolos!!!
E o seu, quando reluzirá? 

Que o leitor  sagaz
É ávido de profundezas…
Desejamos! 

Vamos lá:
Cultivemos e cativemos
Nosso acidental intérprete
Desde a superfície! 

Ou será coisa de minha cabeça,
Que queremos vasculhadas
Nossas profundezas!? 

Eêêêêêêiiiaaáá, poetas!!!
Tomem cuidado
Com quem vos prefaciam!
Não entreguem assim
O “rosto” e as “orelhas”! 

Vitória – Domingo, 24 de agosto de 2003 = 22:12 hs.

A la Paulo Coelho…

1 Fevereiro, 2006 by victorunico

Quantos poetas não se passaram por magos e grandes conhecedores da alma humana falando coisas sobre o próprio umbigo!

E quando vasculhamos todos os recônditos da alma… quando respiramos a poeira de tomos perdidos de velhas relíquias… quando reviramos desertos procurando potes que não trazem água potável mas antigos papiros e velhas verdades sobre nós mesmos, descobrimos finalmente que nem mesmo se pode olhar pro próprio umbigo sem que também o mundo e toda a turba que o povoa se debrucem sobre ele!

E depois de tirar do poeta toda a razão… lá vamos novamente vascular seus baús!

Inspiração

31 Janeiro, 2006 by victorunico

Relógio- Salvador Dali

 

INSPIRAÇÃO

 

No silêncio da noite, escrevo.
Só o ponteiro insistente do relógio desconcentra-me,
O som seco que dele provêm aumenta
E o silêncio lá fora gradativamente solidifica-se. 

Logo o pensamento alça vôo
E a caneta devora o branco das pautas
Vertendo tudo que passo,
Sem discrição, no poema. 

Nada importa tanto quanto as lembranças
O presente se torna mecânico e automático
Subitamente emerge o concreto das ilusões
Que se reflete na tensão do subscritor. 

A folha se rasga sob a pressão do instrumento
O amante não vê o dano provocado
E o suor flui desfibrando a celulose
Sem arreio e sem pudor. 

Desce um queimor no inspirar
Se cerro as pálpebras, correm lágrimas flamejantes
A adrenalina vibra os músculos,
Sensibiliza-se a carne. 

O sangue arde nas orelhas, boca e nariz
E um formigamento corre o corpo
E um frio contrai o esqueleto
E amo a brisa que sopra. 

O contentamento reprime os trágicos desconfortos
Que morrem a este encanto
De sentimentos cândidos, e cuja candura
Há de manter-se inquebrável. 

A caneta cai, dá-se cumprida esta imortalização
E o papel tem a originalidade comprometida
Pelo fluido que emana da pele orvalhante
E o néctar salgado que lubrifica o olhar. 

O bêbado cambaleante de olhos cansados
Sai da orgia da qual gozou na escrivaninha
E joga-se no leito no ímpeto das últimas forças
Recolhe ao peito o travesseiro, com sofreguidão 

Espera-lhe no sono inquieto, sísmico,
Provavelmente a avidez das paixões,
A veemência dos desejos vitais,
O regalo inconsciente. 

Colatina, 1995. Especialmente para a “Feira de Literatura”  realizada no Colégio Marista.

Único e Múltiplo! – Como?

24 Janeiro, 2006 by victorunico

Se todos são únicos em algum sentido…

Se todos são uma multiplicidade transbordante…

O que faz de alguém diferente?

Para responder essa pergunta é preciso ser romântico – saber valorizar o acidental, o que jamais se repete, aquilo que só acontece mediante uma tremenda combinação de fatores, aquilo que se perde e se cria a cada instante e que não pode ser preservado exceto por um grandioso esforço!

MÚLTIPLO

Victorunico

Eu, que parecia ser santo,
De repente me flagrei
Trazendo ouro no oco do pau. 

Eu, que parecia tão formatado,
De repente me fiz
Formador. 

Eu, que era pura virtualidade e divagar,
De repente, pesando bem,
Tornei-me pesado. 

Eu, que só a pouco
Pousei os pés no chão,
Comecei a sondar como águia. 

Eu, para quem Deus era uma sombra,
Posso conceber em profundidade e superfície,
Além e aquém das perspectivas, seu iluminar. 

Eu, que tanto lutei por me diferenciar,
De repente tornei-me alquimista…
Às avessas. 

Eu, que tantas veredas abri à caça do amor,
Tenho cada vez mais fé
Nesse “Pé-grande meio Curupira”. 

Eu, que tanto demorei para ser
E como partícula questionar;
Agora pulverizado… cada vez mais sentido cósmico. 

Eu, besta de uma paroxidade colossal,
Tão vertiginosamente único,
Tão terrificantemente múltiplo. 

Vitória – Domingo, 10 de agosto de 2003 – 01:48 hs. 

Dos “pudores do corpo”…

22 Janeiro, 2006 by victorunico

SimoneHonestamente, não desejaria voltar uma vez mais a este tema, mas é preciso fazer um adendo ao post Do exercício da sexualidade….

É que existem buscas que não se dão por findadas até que se encerrem os doces acasos que as acompanham – principalmente quando se é poeta!

Uma negligência: que da inclinação do poeta – e de toda ordem de artistas – decorre que em seu âmbito de conhecimento só passou a existir pudor quando o corpo foi sacralizado pela religião e dessacralizado pela ciência – particularmente a Medicina.

Que sobre a sujeita que se fez assentar sobre o corpo (como carne) por força das práticas cristãs, redobrou depois a Medicina, no sentido de tomar para si o privilégio de falar sobre e de gerir o mesmo.

O que era graça à poesia, fez-se pecado na religião e doença nos saberes médico-psiquiátricos!

Que a poesia sempre esteve muito mais perto da gente comum e que houveram poucas ocasiões em que essas linguas verdadeiramente se calaram a respeito desses assuntos!

Dos incômodos dos poetas…

21 Janeiro, 2006 by victorunico

Há quem creia que o que faz um poeta é o possuir uma sensibilidade apurada.

Se é assim, é mesmo um tormento possuir uma fisiologia de poeta, já que, neste caso, “fazer tempestade em copo d’água” não é mera figura de linguagem!

Que há tantas realidades a que ser sensível, que fatalmente só podemos ser o tempo todo parciais.

Que mesmo uma palavra nos pode colocar em contato com tão infinitas coisas… que só mesmo desdobrando da vida a poesia, pode a vida ser resguardada de não perder o contato consigo mesma!

A pulga atrás da orelha - Victorunico

Poema originalmente publicado no Jornal PET – Jornal do Curso de Psicologia e Boletim Informativo do Grupo PET Psicologia – UFES. Edição n.º 8, julho de 2000. Foi minha primeira publicação (se é que assim posso chamar).

Acompanhava a seguinte Nota:

“Este poema foi fruto da Oficina de Produção Literária, evento que encerrou o Seminário ‘Universidade em Discussão’, realizado entre 05 e 09 de junho deste ano [2000] como proposta de Atividade de Greve, produzido pelos ‘Estudantes da UFES’”.

Na época nossa moral pedia que não fossem definidos quem eram esses estudantes… mas seria injustificável não dizer que quem coordenadava a oficina era meu caro amigo (Luiz Gustavo) BADARÓ.

Do exercício da sexualidade…

19 Janeiro, 2006 by victorunico

EscrevendoO que se pode esperar de quem vive (a vida – no sentido forte, afirmativo e livre) e vive (se compele – num sentido extraforte, supra-afirmativo e restritivo) como que de prontidão para se assentar* e declinar-se* sobre qualquer meio de transcrever o que depreendeu da vida na forma de escrito?

[(*) Leiam-se tais palavras sob todos os sentidos!]

Há muito já se disse que não se pode esperar dos poetas a verdade, compelidos que estão a creditar algum saber sobre o céu e a terra a quem cola as orelhas nos barrancos!

Tampouco - complemento eu – se deve fazer de um tal fanfarrão, depositário do privilégio da melhor percepção sobre nossa sexualidade!

Que me cerquem mil poetas a falar e declamar seus afetos! – apartem-se todos de mim – mentirosos com suas encenações e exibicionismos!

Que sempre que falarem dos seus orgasmos – é porque não gozaram!

Que crédito dar a essa raça de gente que precisa da minha audiência – ou da atenção fugídia de um leitor – prá atingir o platô!?

Que sempre que descreverem suas aventuras, vividas ou inventadas – que se entenda que ainda que dançem, deitem, rolem e suem seus corpos – pretendem no fim: assentarcorrer numa urgência inevitável à cadeira para normatizar, estabilizar, codificar, legitimar – tornar sua experiência decreto!

Que nesse impulso, necessariamente o acompanha o declinar-se – antes a si mesmo, e depois fazer declinar o outro! – Se curvar ao papel, ao teclado (o que seja); fazer respeito ao mais efêmero pensamento ou ato; reverenciar suas criações como coisas eternas; e, por fim, levar ao declínio a própria vida!

Conselho de um psicólogo: abandone os poetas e poetize tu mesmo com teu corpo!

Nova Fase - Victorunico

Por que o que importa é a fisiologia!

18 Janeiro, 2006 by victorunico

Ao tratar do sono (Um problema de “primeira linha”!), da fome (O segundo problema de um escritor!) e agora da sede, muito provavelmente você se aperceberá de que o que está em jogo aqui é a fisiologia.

Assim é para o filósofo Nietzsche, e para o psicólogo Maslov – curiosamente ambos falam de pirâmides (um do ponto de vista do que é socialmente necessário; outro, do que o é ao indivíduo).

Por razões filosóficas prefiro a distinção criada por Nietzsche, que declara que toda sociedade saudável é formada por três tipos de homens, cada qual com uma fisiologia própria (Nietzsche, O anticristo, LVII): uma casta superior, formada por intelectuais – representando a felicidade, a beleza e tudo de bom sobre a terra; uma segunda, constituída por guerreiros nobres, que constitui o elemento executivo dos intelectuais; e uma terceira, determinada pela mediocridade - que em si mesma não é nem boa nem ruim - uma classe cuja fisiologia gravita entre as duas primeiras. Esses três tipos se condicionariam mutuamente, uma vez que da grande base da pirâmide social, constituída pelos medíocres, se distinguem as duas primeiras.

Talvez me perguntemcomo pode suas fisiologias serem diferentes se a água que bebem é a mesma?

Aqui entraria uma questão propriamente existencial, porque se uns se resumem a simplesmente beber e gastar a água que lhe chegam às torneiras, outros fazem com que essa água seja recolhida dos mananciais, tratada, conduzida por uma invisível engenharia até as torneiras de todos. Outros ainda, se dedicam a pensar não só essas questões práticas e cotidianas, mas a refletir como preservar a água que está aí agora, de onde tirá-la no futuro, como educar a sociedade para melhor beber!

Mas não me perguntem onde entra o poeta que simplesmente toma a água (também no sentido comum!) por tema de criação - porque se há algo que um poeta sabe fazer por excelência é mimetizar sua diferenciação!!!

(A poesia que segue foi composta especialmente para uma apresentação cultural no Colégio Agostiniano – Vitória, no ano de 2004, cujo tema da Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB era “Água: Fonte de Vida“. A mesma poesia foi gentilmente emprestada ao poeta, cartunista e dramaturgo capixaba Milson Henriques para declamação, no mesmo ano, na festa de comemoração do aniversário da CESAN – Companhia Espírito Santense de Saneamento).

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Victorunico